"Só quem já se modificou pode modificar os outros." S. Kierkegaard

As Armadilhas da Comunicação Humana

As linhas mais tradicionais de psicologia pensavam que, quando o casal não se relacionava bem, cada um deles deveria buscar tratamento, e que, quando os dois estivessem bem, tudo estaria melhor entre eles. Hoje se sabe que não é bem assim. Há pessoas bem resolvidas que não se relacionam em e há pessoas bastante mal resolvidas pessoalmente que se dão bem uma com a outra e vivem uma relação boa. Grandes esforços em reparar o relacionamento pela via individual resultaram, muitas vezes, em nada. O que se sabe hoje é que a maioria quase absoluta dos problemas de relacionamento é devido a problemas de comunicação. Não é o que ocorre dentro de cada pessoa que prejudica o relacionamento: o mais importante é o que ocorre entre as pessoas, na comunicação. A clínica mostra que as dificuldades mais importantes da comunicação são constituídas de equívocos devidos à complexidade da comunicação humana: nós não sabemos utilizar bem a fabulosa ferramenta que temos para nos comunicarmos uns com os outros. Isto ocorre por alguns fatos relacionados com a estrutura da comunicação dos seres humanos.

O primeiro fato é o de que a comunicação humana é processada em dois níveis: o nível da comunicação propriamente dito e o nível da meta-comunicação. O nível da comunicação, mais simples e menos abrangente, é verbal e consciente e está relacionado com a objetividade. O segundo nível, muito mais abrangente, é o nível da meta-comunicação, que se refere à relação entre as pessoas que se comunicam. O nível meta é essencialmente não-verbal e é constituído de gestos, entonações, inflexões, de que, em geral, não estamos conscientes. Então, em toda comunicação, por mais simples e banal que pareça, estamos comunicando, ao mesmo tempo, alguma coisa a respeita da realidade objetiva e estamos afirmando quem somos nós um para o outro. Não existe comunicação puramente objetiva. Não é possível comunicar sem relacionar. É a comunicação que nasceu do relacionamente, e não o contrário.

Em toda e qualquer interação, a nossa mente consciente estará prestando atenção aos fatos da realidade verbal-abstrata, procurando interpretar significado objetivo das palavras. A nossa mente inconsciente estará prestando atenção aos fatos mais concretos ligados ao relacionamento, como o tom com que se fala e a expressão corporal como um todo, que falam a respeito de quem somos nós uns para os outros. Para a mente inconsciente as coisas são o que parecem ser. Concordância é concordância. Discordância é discordância.

O segundo fato está relacionado com a importância relativa entre a realidade objetiva e a realidade dos relacionamentos. Para nós seres humanos os relacionamentos são sempre infinitamente mais importantes do que os fatos da realidade. Na realidade quotidiana, os fatos objetivos chegam algumas vezes a ter importância quase zero, em comparação com o peso do relacionamento. Então, quando um casal está brigando, digamos, por causa da marca da pasta de dentes, com certeza, a questão não é a marca da pasta de dentes.

O terceiro fato está relacionado com o resultado da comunicação. A comunicação humana produz dois resultados possíveis: a concordância ou a discordância. Não há meio termo. Ou as pessoas estão se comunicando em um clima de concordância ou em um clima de discordância.

Um clima de discordância, portanto, será sempre a respeito do relacionamento entre as pessoas que se comunicam, mesmo quando tudo parecer indicar que as pessoas estão discordando a respeito de algum fato da realidade objetiva. Para a mente consciente, a discordância será a respeito dos fatos, enquanto para a mente inconsciente, tudo estará ligado ao relacionamento entre as pessoas que se comunicam.

É importante ressaltar que:

1. Quando as pessoas confundem a discordância sobre os fatos da realidade objetiva com a relação que têm um com o outro, isto se deve à estrutura da comunicação humana, que permite este tipo de confusão. Colocar nestas pessoas o rótulo de neuróticas, ansiosas, doentes, perturbadas, desequilibradas, maldosas, etc., desloca o problema de seu verdadeiro foco e não melhora as coisas.

2. É mais fácil corrigir a comunicação do que "corrigir" as pessoas individualmente.

3. Comunicação é relacionamento. Não é possível comunicar sem relacionar. Na prática, todo desentendimento é pessoal.

4. A comunicação se torna mais fácil quando os interlocutores validam mutuamente sua relação. Ao contrário, qualquer desqualificação da relação torna tudo mais difícil.

5. Os desentendimentos a respeito dos fatos objetivos (nível da comunicação) se transformam facilmente em desentendimentos sobre o relacionamento (nível meta da comunicação). A recíproca é verdadeira: é muito difícil obter acordos, mesmo em assuntos banais, quando o relacionamento está perturbado.

6. Quando o relacionamento está bem estruturado e é mantido assim ao longo da comunicação, mesmo as discordância mais difíceis são levadas a bom termo.

Experimento isto:

1. Quando alguém (a esposa, o marido, o chefe, o colega de trabalho, o irmão, o pai, o amigo, um estranho, etc.) vier até você para comunicar alguma coisa, em um tom desconfortável, de reclamação, de crítica, de ansiedade, etc., com gestos e expressão carregada, experimente confirmar ou validar a pessoa primeiro. Esqueça um pouco o fato objetivo e focalize quem ele/ela é como pessoa. Antes de tudo, concorde com ela, diga-lhe que ela tem razão, crie um clima de concordância. Mantido este clima, você poderá discutir a questão objetiva.

2. Quando você for comunicar a alguém alguma coisa que possa gerar a mínima controvérsia, prepare-se antes. Reforce dentro de você o quanto aquela pessoa é valiosa para você e o quanto é importante manter com ela um bom relacionamento. Lembre-se pelo menos três experiências boas que você teve com esta pessoa. Lembre-se também das qualidades boas que a pessoa tem. Quando encontrar a pessoa, abra a conversação com coisas agradáveis do dia a dia. Somente quando tiver certeza de que o clima está bom você poderá experimentar colocar o assunto difícil. Mesmo assim, se houver qualquer expressão de desagrado nela, volte atrás. Faça a pessoa saber que, por mais importante que seja a comunicação, não vale a pena arriscar o relacionamento.

(É claro que essas experiências devem ser feitas primeiro em situações normais. Entretanto, existem pessoas que, mesmo em emergência, dão prioridade aos relacionamentos.)

Comentários   

0 #3 Rodrigo 16-03-2014 18:45
Excelente artigo.
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+3 #2 Maria das Graças 02-05-2005 06:00
Mais ainda gostaria de saber qual a ferramenta mais importante da comunicação huamana.
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+4 #1 José Carlos Aragão 02-05-2005 06:00
A experiência que estou tendo com 40 pessoas no canteiro de obras, vem validar o gostar de gente, o sentir aqueles seres humanos diferentes que buscam de forma incosciente expressarem-se e para nos comunicarmos melhor com eles, precisamos valorizá-los em nosso mapa, vê-los como seres especiais, dotados de recursos que podem ser trabalhados para um bom relacionamento. Isso vem dando certo, a produtividade vem crescendo!!!
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