"As coisas mais difíceis de se ver são as que estão debaixo de nossos olhos." V. G. Rossi

As Armadilhas da Comunicação Humana

As linhas mais tradicionais de psicologia pensavam que, quando o casal não se relacionava bem, cada um deles deveria buscar tratamento, e que, quando os dois estivessem bem, tudo estaria melhor entre eles. Hoje se sabe que não é bem assim. Há pessoas bem resolvidas que não se relacionam em e há pessoas bastante mal resolvidas pessoalmente que se dão bem uma com a outra e vivem uma relação boa. Grandes esforços em reparar o relacionamento pela via individual resultaram, muitas vezes, em nada. O que se sabe hoje é que a maioria quase absoluta dos problemas de relacionamento é devido a problemas de comunicação. Não é o que ocorre dentro de cada pessoa que prejudica o relacionamento: o mais importante é o que ocorre entre as pessoas, na comunicação. A clínica mostra que as dificuldades mais importantes da comunicação são constituídas de equívocos devidos à complexidade da comunicação humana: nós não sabemos utilizar bem a fabulosa ferramenta que temos para nos comunicarmos uns com os outros. Isto ocorre por alguns fatos relacionados com a estrutura da comunicação dos seres humanos.

O primeiro fato é o de que a comunicação humana é processada em dois níveis: o nível da comunicação propriamente dito e o nível da meta-comunicação. O nível da comunicação, mais simples e menos abrangente, é verbal e consciente e está relacionado com a objetividade. O segundo nível, muito mais abrangente, é o nível da meta-comunicação, que se refere à relação entre as pessoas que se comunicam. O nível meta é essencialmente não-verbal e é constituído de gestos, entonações, inflexões, de que, em geral, não estamos conscientes. Então, em toda comunicação, por mais simples e banal que pareça, estamos comunicando, ao mesmo tempo, alguma coisa a respeita da realidade objetiva e estamos afirmando quem somos nós um para o outro. Não existe comunicação puramente objetiva. Não é possível comunicar sem relacionar. É a comunicação que nasceu do relacionamente, e não o contrário.

Em toda e qualquer interação, a nossa mente consciente estará prestando atenção aos fatos da realidade verbal-abstrata, procurando interpretar significado objetivo das palavras. A nossa mente inconsciente estará prestando atenção aos fatos mais concretos ligados ao relacionamento, como o tom com que se fala e a expressão corporal como um todo, que falam a respeito de quem somos nós uns para os outros. Para a mente inconsciente as coisas são o que parecem ser. Concordância é concordância. Discordância é discordância.

O segundo fato está relacionado com a importância relativa entre a realidade objetiva e a realidade dos relacionamentos. Para nós seres humanos os relacionamentos são sempre infinitamente mais importantes do que os fatos da realidade. Na realidade quotidiana, os fatos objetivos chegam algumas vezes a ter importância quase zero, em comparação com o peso do relacionamento. Então, quando um casal está brigando, digamos, por causa da marca da pasta de dentes, com certeza, a questão não é a marca da pasta de dentes.

O terceiro fato está relacionado com o resultado da comunicação. A comunicação humana produz dois resultados possíveis: a concordância ou a discordância. Não há meio termo. Ou as pessoas estão se comunicando em um clima de concordância ou em um clima de discordância.

Um clima de discordância, portanto, será sempre a respeito do relacionamento entre as pessoas que se comunicam, mesmo quando tudo parecer indicar que as pessoas estão discordando a respeito de algum fato da realidade objetiva. Para a mente consciente, a discordância será a respeito dos fatos, enquanto para a mente inconsciente, tudo estará ligado ao relacionamento entre as pessoas que se comunicam.

É importante ressaltar que:

1. Quando as pessoas confundem a discordância sobre os fatos da realidade objetiva com a relação que têm um com o outro, isto se deve à estrutura da comunicação humana, que permite este tipo de confusão. Colocar nestas pessoas o rótulo de neuróticas, ansiosas, doentes, perturbadas, desequilibradas, maldosas, etc., desloca o problema de seu verdadeiro foco e não melhora as coisas.

2. É mais fácil corrigir a comunicação do que "corrigir" as pessoas individualmente.

3. Comunicação é relacionamento. Não é possível comunicar sem relacionar. Na prática, todo desentendimento é pessoal.

4. A comunicação se torna mais fácil quando os interlocutores validam mutuamente sua relação. Ao contrário, qualquer desqualificação da relação torna tudo mais difícil.

5. Os desentendimentos a respeito dos fatos objetivos (nível da comunicação) se transformam facilmente em desentendimentos sobre o relacionamento (nível meta da comunicação). A recíproca é verdadeira: é muito difícil obter acordos, mesmo em assuntos banais, quando o relacionamento está perturbado.

6. Quando o relacionamento está bem estruturado e é mantido assim ao longo da comunicação, mesmo as discordância mais difíceis são levadas a bom termo.

Experimento isto:

1. Quando alguém (a esposa, o marido, o chefe, o colega de trabalho, o irmão, o pai, o amigo, um estranho, etc.) vier até você para comunicar alguma coisa, em um tom desconfortável, de reclamação, de crítica, de ansiedade, etc., com gestos e expressão carregada, experimente confirmar ou validar a pessoa primeiro. Esqueça um pouco o fato objetivo e focalize quem ele/ela é como pessoa. Antes de tudo, concorde com ela, diga-lhe que ela tem razão, crie um clima de concordância. Mantido este clima, você poderá discutir a questão objetiva.

2. Quando você for comunicar a alguém alguma coisa que possa gerar a mínima controvérsia, prepare-se antes. Reforce dentro de você o quanto aquela pessoa é valiosa para você e o quanto é importante manter com ela um bom relacionamento. Lembre-se pelo menos três experiências boas que você teve com esta pessoa. Lembre-se também das qualidades boas que a pessoa tem. Quando encontrar a pessoa, abra a conversação com coisas agradáveis do dia a dia. Somente quando tiver certeza de que o clima está bom você poderá experimentar colocar o assunto difícil. Mesmo assim, se houver qualquer expressão de desagrado nela, volte atrás. Faça a pessoa saber que, por mais importante que seja a comunicação, não vale a pena arriscar o relacionamento.

(É claro que essas experiências devem ser feitas primeiro em situações normais. Entretanto, existem pessoas que, mesmo em emergência, dão prioridade aos relacionamentos.)

Comentários   

0 #3 Rodrigo 16-03-2014 18:45
Excelente artigo.
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+3 #2 Maria das Graças 02-05-2005 06:00
Mais ainda gostaria de saber qual a ferramenta mais importante da comunicação huamana.
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+4 #1 José Carlos Aragão 02-05-2005 06:00
A experiência que estou tendo com 40 pessoas no canteiro de obras, vem validar o gostar de gente, o sentir aqueles seres humanos diferentes que buscam de forma incosciente expressarem-se e para nos comunicarmos melhor com eles, precisamos valorizá-los em nosso mapa, vê-los como seres especiais, dotados de recursos que podem ser trabalhados para um bom relacionamento. Isso vem dando certo, a produtividade vem crescendo!!!
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